Chapada da Diamantina – em busca do diamante perdido

De Igatú fomos para o nosso seguinte destino, Lençóis. Considerado património histórico do Brasil, esta cidade guarda viva a memória dos tempos áureos do garimpo com uma natureza única ao seu redor. Atualmente considerada a atividade de garimpo ilegal, é o turismo o seu grande diamante.

A cidade está dividida ao meio por um rio com o mesmo nome, com águas negras devido ao excesso de matéria orgânica proveniente da densa vegetação. Por momentos fez-nos recordar os tempos que vivemos na Amazónia.

Considerada a cidade portal da Chapada da Diamantina, o acesso pode ser feito pela rodovia BR 242, partindo de Salvador. Apresenta uma boa infraestrutura hoteleira, restaurantes e um pequeno aeroporto. É também a cidade de ponto de partida para conhecer vários atrativos do Parque Nacional.

Para nós, o interesse estava na escalada próxima à cidade, aproveitando a sua localização para visitar a famosa Cachoeira da Fumaça e o Vale do Cercado para vislumbrar as suas incríveis montanhas, como o Morro do Pai Inácio e o Morro do Camelo.

Escalada em Lençóis

Parque da Muritiba

Do lado da cidade fica o Parque Municipal da Muritiba de fácil acesso. Para além dos seus atrativos turísticos ao longo do rio Lençóis, como o Serrano, Poço Halley, Salão das Areias Coloridas, as cachoeiras Primavera e Cachoeirinha, tem vários setores de escalada com mais de 200 vias em conglomerados e quartzito de excelente qualidade.

O percurso total de caminhada do Parque da Muritiba é de cerca de 5 km e os setores de escalada situam-se tanto na margem direita como na esquerda do rio.

Atualmente existe um pequeno guia de escalada de 2013, no entanto, por experiência própria, para quem não conhece nada do local torna-se um pouco difícil se orientar pelo mapa (sem informação da escalada) que está no Guia. Basicamente fomos caminhando pela margem direita do rio atentos às paredes rochosas até encontrarmos alguma via para depois nos conseguirmos guiar pelas fotos do Guia.

No primeiro dia que chegámos (já um pouco tarde), fizemos um passeio de reconhecimento do local. Ficámos encantados pela sua beleza, rodeada por vegetação, vida animal, inúmeras cachoeiras e poços de água escura para um refrescante banho.

Nos dias seguintes conhecemos vários setores e entramos nas vias mais clássicas (com 4 ou 5 estrelas no Guia), como a famosa “Boca de Escopeta” 6C+ FR, de fantástico extraprume em conglomerados e a “Arame Liso” 6C+ FR, esta já em outro estilo, com um misto de regletes numa placa com um crux bem definido.

Barro Branco

Após alguns dias de escalada no Parque da Muritiba conhecemos o Renato através do grupo de Escalada da Chapada Diamantina do Facebook. O Renato é um escalador do sul do Brasil que foi morar para a Chapada da Diamantina motivado pelo ar das montanhas e que tem vindo a dinamizar juntamente com alguns outros escaladores locais a atividade na região, que tem um potencial surreal. Assim, combinámos conhecer um novo setor de escalada nas proximidades de Lençóis, o Barro Branco, localizado em direção à Gruta do Lapão.

Ao chegarmos ao local, o Renato apresentou os principais setores e vias. O Barro Branco é formado por vários gigantes blocos de rocha, Bloco Moniz, Moniz Evolution, entre outros, de uns 20 a 25 metros. Para além desses blocos, recentemente os escaladores locais começaram a equipar um novo setor, setor Fanáticos, de excelente qualidade, com vias um pouco mais longas.

Ficámos deslumbrados com o lugar, com a qualidade da rocha e das suas vias e tornámo-nos frequentadores assíduos do lugar.

Com a chegada a Lençóis, do simpático casal de escaladores Ruddy e Luan, que havíamos conhecido na Serra do Cipó, partilhámos com eles vários dias de muita escalada e bons momentos até ao fim da nossa estadia na Chapada da Diamantina.

Entrámos em várias vias, todas de excelente qualidade, em especial destaque para: Alquimista 7A+, Capitão Conglomerado 7A, Leve na neve 7A, Suave na nave 7A, e Fenda Ilusória 6C.

Informações úteis:

  • Guia escalada:
    • Parque da Muritiba: existe um guia de escalada do Parque da Muritiba à venda e no site do Facebook é possível obter informações de onde comprar o guia. No site 27crags já existe alguma informação deste lugar.
    • Barro Branco: não existe guia de escalada deste local mas no site 27crags já existe alguma informação deste lugar.  No Facebook, tem um grupo de Escalada Lençóis, onde é possível entrar em contato com os escaladores locais.
  • Como chegar: é possível chegar a Lençóis de avião, a AZUL tem voos todas as 5ª e Domingos, ou de autocarro pela companhia Real Expresso.
  • Alojamento: infelizmente não existe nenhum Abrigo para escaladores. Quando fomos ficámos na Casa da Dona Izete, lugar bem simples mas muito simpático e agradável.
  • Outros:  Lençóis, vive praticamente do turismo, é normal que guias e falsos guias tentem vender passeios para conhecer algumas trilhas e lugares. Infelizmente as trilhas não estão marcadas nem identificadas como em outros Parques Nacionais. Optámos sempre por fazer os passeios utilizando as aplicações Geo Tracker e Wikiloc, que demonstraram ser bastante úteis.
    • Ribeirão do meio: download do trekking aqui.
    • Cachoeira do Mandassaia: download do trekking aqui.
    • Essencial levar repelente, por vezes a quantidade de mosquitos é enorme.
  • Localização e pontos de interesse:

Cachoeira da Fumaça

Num dos dias de descanso da escalada aproveitámos para conhecer um pouco mais das belezas da Chapada da Diamantina, a famosa Cachoeira da Fumaça, assim denominada que, por ser tão alta, as suas águas se espalham antes de chegar ao solo, provocando um efeito visual de fumaça.

Com cerca de 340 metros de altura é considerada a segunda maior queda de água do Brasil, depois da Cachoeira do El Dorado, no Amazonas (353 metros).

Num trekking estimado de 3 dias, cerca de 25 km, é possível conhecer a Cachoeira da Fumaça por baixo a partir da cidade de Lençóis. Já a parte de cima, que permite observar toda aquela vertiginosa altura, é feita pelo Vale do Capão, por uma trilha de aproximadamente 6 km e bem mais tranquila. Foi esta opção que escolhemos.

A trilha começa próximo da sede da Associação de Condutores do Vale do Capão (ACV-VC). É recomendável registar os dados pessoais num livro de controlo. No máximo são permitidos 120 visitantes diários para manter a conservação do lugar. Lá também é possível contratar um guia habilitado a quem desejar. Por outro lado, a trilha é de graça.

Alguns metros à frente do início da trilha começa a subida, sendo a parte mais cansativa. A subida vai ficando íngreme e dá para se ter um belo visual do Morrão e do Vale do Capão.

A trilha é muito fácil de se identificar, no entanto, dependendo da época do ano, parte da trilha pode estar bastante alagada, tendo mesmo que passar literalmente dentro da água, pelo rio fumaça.

Passadas cerca de 1h30 já começamos a sentir a “brisa” refrescante provocada pela evaporação das gotículas da cachoeira, dando uma sensação inicial de chuva.

A vista dos canions é espetacular, mas o que faz essa cachoeira especial é a vista de seu mirante. São algumas lajes de pedra à esquerda da cachoeira que se projetam da montanha, fazendo um efeito visual inacreditável quando nos deitamos na pedra e nos debruçamos sobre o abismo.

Atualmente, segundo escaladores locais, estão em negociações com a administração do parque para a possibilidade de se conquistar vias de escalada nos grandes paredões da cachoeira.

No regresso para Lençóis, tivemos a oportunidade de presenciar um arco-íris completo no Vale do Capão.

Escalada clássica (tradicional) no Morro do Pai Inácio

Para fechar com chave de ouro a nossa estadia pela Chapada da Diamantina, aproveitámos a vibe do escalador Ruddy Proença para escalar no Morro da Pai Inácio uma das mais famosas vias do Brasil, a Pauliceia Baiana 6A FR, totalmente em móvel de 120 metros, croqui disponível aqui.

O Morro do Pai Inácio é um dos cartões postais da Chapada, localizado a uns 20 km da cidade de Lençóis na BR 242. O acesso é fácil e rápido e dá para deixar o carro em um posto de gasolina desativado que fica ao lado da estrada.

Caminhámos pela estrada cerca de 200 metros e encontrámos uma entrada na vegetação que dava acesso à subida que leva até à base da parede.

Aproveitando a experiência do Ruddy neste tipo de escalada, ele abriu os 5 largos da via. O crux da via fica no 4º largo, que tem passagem numa fenda off-width. O resto da via é relativamente simples, no entanto a orientação não é fácil. Levámos cerca de 5 horas para chegar no cume, nesta época do ano (julho) sentiu-se um pouco de frio, mas bem confortável para escalar. É necessário ter muito cuidado com os vários blocos soltos na via.

Um agradecimento especial aos escaladores Renato, Gra, Martin, Ruddy e Luan pela vibe e pela amizade.

4 Comments

  1. Otimo seu relato Daniel! Muito beta massa!
    Existe um blog com mais umas infos: escaladanachapadadiamantina.blogspot

    Vê se volta pra conhecer o cercado, escalar o camelo!

    Grande abraço pra vcs!

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